"Vou agora para casa, tenho montes de trabalhos para
fazer."
"Vá lá, por favor! Eu deixo-te fazer os trabalhos, só quero
estar ao pé de ti."
E lá fui eu, ter contigo, iludida pela fugaz e efémera
paixão que senti por ti. Sentámo-nos no banco, aquele banco para onde agora vou
para ler, e enquanto falavas eu tirava o meu caderno.
"Vais sentar-te aí? Tão longe de mim?"
Sorri para ti, sorri da tua falsa inocência e sorri pelos
sentimentos que só os teus olhos e o teu sorriso me transmitiam. Aproximei-me.
Encostei-me a ti, apoiando a cabeça no teu peito, enquanto sentia o teu coração
a acelerar, se não soubesse melhor diria que até gostavas de mim.
Continuaste a falar e eu comecei a ler os meus
apontamentos de Fernando Pessoa. Começaste a brincar com o meu cabelo, olhei para ti
e beijaste-me. De repente, Fernando Pessoa não era assim tão importante e
deixei-o cair no chão.
"Desculpa, continua a escrever." E beijaste-me
na testa.
"Sim, realmente tinhas prometido que não me
distraías."
Peguei no caderno outra vez, beijaste-me o pescoço e a
minha pequena concentração, quase inexistente na verdade, desapareceu por
completo. Arrumei o Fernando e entreguei-me a ti.
Desconcentras-me, sabes? Perco-me algures entre os teus
olhos e o teu sorriso, enquanto ocultas na lentidão dum gesto o brilho
estrelado das tuas sardas.
/thoughts from 2012/

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